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Quatro palavras sobre "Um Dia Quente De Verão", por møntez

Atualizado: 11 de Dez de 2021






Pensei muito em como começar esse texto, mas nenhum dos caminhos que escolhi me davam saída para a liberdade de pôr em palavras – ou de, pelo menos, tentar – o que senti e pensei enquanto assistia a Um Dia Quente de Verão. Nem mesmo o caderno em que geralmente faço anotações enquanto assisto aos filmes pôde me ajudar dessa vez porque nada escrevi nele além de simplesmente quatro palavras. Depois de encarar o cursor piscando na página em branco do computador, me veio o estalo: por que não tentar desenvolver esses quatro verbetes em algumas linhas? Pode até não ser a melhor das decisões, mas acredito que essas quatro palavras conseguem, de alguma forma, indicar um caminho. O que escrevo aqui é apenas uma parte ínfima de algo muito maior e que continua quando os créditos começam a subir. Mas, sem mais delongas, vamos a elas:

Lanterna



O primeiro plano do longa-metragem de Edward Yang é uma lâmpada acesa cuja luminosidade toma a tela com o vermelho, onde surge o título do projeto. Essa lâmpada incandescente está presente na lanterna que o protagonista carrega durante quase toda a projeção. É numa lâmpada, também, que Yang retrata a raiva de Xiao Si’r (Chang Chen), quando este está prestes a ser expulso do colégio noturno após xingar diversos superiores. Não o vemos agir, mas os vidros quebrados enquanto o cordão do objeto balança nos indica a força que a narrativa tomou e, principalmente, como esse jovem rapaz, perdido, lida com esse deslocamento. Mas é na última vez que vemos a lanterna que entendemos o grau de violência que estamos prestes a alcançar: no estúdio de cinema, ao lado de Yang (Lisa Yang), ele esquece o objeto. Não há mais qualquer fonte de luz, estamos imersos na escuridão interna de Si’r.

Penumbra

A iluminação sempre foi uma característica forte dos filmes do cineasta taiwanês. Seus filmes colocam a etimologia da palavra “fotografia” em evidência: a escrita da luz. E é através da parcial falta dela, a penumbra, que muitos dos acontecimentos mais impactantes acontecem. A violência, que vive à espreita, ganha contornos na escuridão das vielas de Taipei. Mas, sem dúvidas, o momento de maior impacto é do massacre. Os rastros de sangue, os corpos que matam e morrem, se acumulam em meio à quase completa falta de luz, mas entendemos perfeitamente o que está acontecendo ali e como aquele momento, aquela vingança, vai reverberar nos próximos minutos. Aliás, antes mesmo dessa sequência brutal, Honey (Hung-Ming Lin) é assassinado e Yang, da penumbra, engole o personagem na escuridão. A quebra da imagem com a tela preta quebra o filme ao meio. A partir daquele instante, estamos diante de algo distinto.


Porta



Esse, muito provavelmente, é um dos momentos que mais me fascinaram na breve maratona que fiz dos filmes do Edward Yang (ao lado da festa de aniversário em A História de Taipei com as luzes de neon da FujiFilm, as fotografias voando em Os Terroristas e o carinho da avó em As Coisas Simples da Vida). Xiao Si’r vem saindo da enfermaria quando ele percebe que Ming também está lá. Ele caminha para o canto esquerdo da câmera, saindo dos limites da imagem. A jovem surge logo depois e o percebe ali.

É então que Yang opta por não seguir com a personagem até a esquerda, ele leva sua lente à direita, para o reflexo da sombra desses personagens numa porta. No breve diálogo, Si’r afirma que foi procurado por membros da gangue rival e que estava numa maré de azar naqueles dias, por isso não compareceu ao compromisso que havia marcado com Ming. Dito isso, os personagens surgem novamente no plano, falando banalidades sobre o dia a dia escolar. Essa opção ganha ainda mais textura no final, quando ambos se tornam, apenas, sombras, reflexos de um passado.

Tanque



Antes, um fato interessante sobre essa palavra: ela aparece duas vezes nas minhas anotações. Uma, no canto esquerdo superior do caderno, e outra, no canto esquerdo inferior. A primeira foi feita quando a família de Xiao Si’r estão voltando de uma festa em que a Mãe (Elaine Jin) fala sobre relógio. No ônibus, eles conversam sobre a situação da família: sobre os estudos do jovem, sobre o diploma de professora da esposa, sobre os problemas que o pai lida. Até que Yang corta para o motorista dirigindo: tanques andam pela rua enquanto não há mais linhas de diálogo a serem ouvidas por alguns segundos.

A segunda anotação foi feita num diálogo entre Si’r e Ming. Eles falam sobre suas relações enquanto os tanques desfilam pela rua. Esses tanques, símbolos do militarismo, dividem espaço com as armas de fogo, com as katanas e punhais. Os vestígios de violência estão por toda parte, circulando durante todo o longa, chegando no ápice em seu meio e seu final. Um Dia Quente de Verão carrega consigo toda a delicadeza e força que os filmes de Edward Yang possuem, mas num patamar ainda mais alto e mais surpreendente. Aqui, quatro palavras; mas um dicionário ainda seria pouco para descrever essa obra-prima.


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