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sobre corvos e olhares, por møntez

Atualizado: 11 de Dez de 2021





Bodega Bay estava sendo assombrada por um fenômeno inexplicável. Dentro do café, Melanie (Tippi Hedren) comenta que as aves atacaram crianças na escola. Uma ornitóloga, que ocasionalmente estava passando por ali, diz que pássaros não são capazes de perseguir e atacar humanos como está sendo dito. Uma mãe pede para que falem mais baixo para não assustarem as crianças. Na janela do local, pode-se ver um pássaro atacando um homem que está colocando gasolina em seu automóvel. O líquido se espalha pelo chão quando um outro resolve acender um cigarro. Todos tentam avisá-lo, mas já é tarde demais. Ele pega fogo enquanto as chamas se espalham pela praça. Hitchcock, em Os Pássaros (1963), então, corta para um plano de cima, mostrando toda a região, enquanto as aves descem para a cidade, como se acompanhássemos o ponto de vista das gaivotas.

Algo muito semelhante acontece em Opera (1987), de Dario Argento, possivelmente meu filme favorito do diretor. O instante é um dos mais importantes da narrativa: a descoberta de quem é o homem que vem atormentando a protagonista Betty (Cristina Marsillach). O plano pensado por Marco (Ian Charleson), o diretor da produção operística, é lançar os corvos no teatro para que ele identifique quem é essa pessoa, já que, segundo o treinador dos pássaros, eles são vingativos. Argento, brilhantemente, toma como ponto de vista o olhar dos corvos. A câmera sobrevoa o ambiente, ameaçando os espectadores teatrais, em busca daquele que teria matado três corvos dias antes. A descoberta é feita e o culpado tem o olho arrancado diante dos nossos olhos. Esse longa-metragem do cineasta italiano é a culminância de um cinema que sempre se øpreocupou com as possibilidades da imagem.

O posicionamento das lentes de Dario Argento sempre buscou imprimir as sensações de incerteza, paranoia e medo de que cercam a atmosfera de seus projetos. Em Phenomena (1985), seu filme anterior, por exemplo, os batimentos cardíacos podiam ser ouvidos enquanto a câmera buscava o rosto da personagem vivida por Jennifer Connolly. Já em no filme protagonizado por Marsillach, os batimentos de medo são retratados na própria imagem, magnetizando ainda mais os nossos sentidos para o que acontece do outro lado da tela. E a principal fonte de ligação entre nós, de um lado, e os personagens, do outro, se dá através do olhar. E Opera é, entre outras coisas, um filme sobre esse órgão sensorial. Basta observar como ele se inicia: no olhar de um corvo que reflete em sua retina as poltronas do teatro em que se passa a narrativa.


E é sobre essa imagem refletida que gostaria de discorrer rapidamente: como um diretor preocupado com as sensações do medo, Argento destaca aqui nossa posição diante de suas obras. A jornada de Betty é semelhante com a do espectador de cinema ao começar a assistir a um filme. Mas, por hora, voltemos alguns anos para outra produção de Alfred Hitchcock: Janela Indiscreta (1954). O personagem de James Stewart, um fotógrafo, está acidentado. Do seu apartamento, com sua lente teleobjetiva, ele observa a vida alheia, numa colagem de momentos que reverberam na característica inerente do espectador cinematográfico: o voyeurismo. Jeff tem seu olhar estimulado constantemente pelo prazer de observar um possível crime que ocorreu em um dos apartamentos em frente. Ele, que mal vemos comer durante todo o filme, na verdade, se alimenta através do olhar e pelo êxtase provocado pelas possibilidades.

Betty, em Opera, carrega em seu olhar a incerteza sobre se deve ou não interpretar Lady Macbeth na “peça amaldiçoada”. Mas ao entrar naquele universo, como nós entramos ao dar play em um filme, estamos desarmados para qualquer acontecimento. O assassino a amarra nos braços e nas pernas, a amordaça e põe pequenas estacas metálicas para que seus olhos não fechem (uma imagem que reverbera Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick). Ela observa os horrores que se desenrolam diante dela, mas não pode fechar os olhos, como se estivesse magnetizada pelo que se apresenta diante dela. Como escreveu Edgar Morin em O Cinema e o Homem Imaginário, o espectador “não tem qualquer poder, não tem nada para dar [...]. Paciente, suporta. Subjugado, sofre. Tudo se passa longe, fora do seu alcance”. Argento nos prende diante da imagem do horror, que desejamos e repulsamos na mesma intensidade.

Este longa-metragem encontra-se, de certa forma, com outro projeto do diretor: Tenebre (1982), onde ele problematiza, também, as questões do olhar e da sua posição como diretor e a nossa como espectadores. É interessante uma frase dita por Betty ao policial ao chegar em seu prédio. Ela diz: “Não quero ver nada, não quero pensar em nada, quero fugir apenas.” É, mais ou menos, o sentimento que desejamos ao entrar no universo cinematográfico, mas uma vez ali, não conseguimos respirar completamente até o final, quando, assim como a protagonista, Argento nos liberta como a lagarta presa por um galho. Opera (1987) entra para a lista de grandes filmes sobre o nosso ato de

er, desejar e repelir imagens. Somos como corvos em busca de mais um olho para consumir o que se projeta diante de nós.


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