• Lisa Yang

long season, e a experiência da juventude retratada por fishmans, um texto em contexto pandêmico

Atualizado: 18 de Dez de 2021



crescer.

At dusk we drove Calling the wind, and calling you We ran from one end of Tokyo to the other Halfway dreaming In a dream What is that song you are humming? What comes to mind?

crescer, é uma experiência única. eu nunca vi uma música tão bela quanto "long season", de fishmans. ela captura tão bem o ser jovem, o viver, as memórias, o passado, o presente, o futuro, o amadurecer. toda vez que eu toco ela e ouço sinto um mix de emoções sem igual. eu conheci essa banda através da minha amiga, barbara. lhe sou muito grata por ter me introduzido a essa banda. vou trazer um breve contexto necessário e começo a falar um pouco da minha vida pessoal e como ela se relaciona com está música. fishmans, é uma banda japonesa de dream pop/neo-psychedelia que até então, tinha lançado uns discos não tão bons perante a crítica mas foi então em 1996 que começou a famosa trilogia, "setagaya". que começou por 空中キャンプ (1996), depois veio talvez o maior hit deles que me motivou a escrever este texto, long season (1996) e por fim 宇宙 日本 世田谷 (1997). long season foi o sexto álbum de estúdio desta banda. foi inspirado no single "season".

bem dito tudo isso, "que a temporada comece." fato é, não sou uma pessoa feliz, não sei me expressar perfeitamente, não tenho habilidades comunicativas com as pessoas. por isso, por meio de palavras venho e tento ser eu mesma, sem vergonha de mim ou do que possam pensar sobre a minha pessoa. eu já falei um pouco sobre minha história na crítica de "el espirtu de la colmena". quem leu deve lembrar, só que o intuito deste deste texto é justamente tentar fazer com que as pessoas me ouçam, e entendam. eu sou órfã, fui criada num orfanato nos meus primeiros anos de vida na españa, provavelmente sou española. a verdade é que o orfanato não era tão ruim, fiz várias amizades, mas sempre tive o medo de perder as pessoas por perto, dado que nunca conheci meus pais. na realidade, a minha história de vida, é a história dos filmes. eu lembro que todo mês o pessoal do orfanato passava uns filmes clássicos e eu amava. consigo lembrar claramente de ver filmes como spartacus, do stanley kubrick e o labirinto do fauno, de guillermo del toro.

bem, tempo se passa, tive alguns traumas mas minha vida mudou completamente quando fui adotada por um casal de religiosos. minha trajetória desde então pra ser sincera vem sendo um inferno, a situação pra mim ficou tão ruim que já tive que deixar de morar com eles e ir para outro lugar, eu quase fiquei para sempre naquelas casas de acolhimento a órfãos no Brasil. eu sou trans, não aceitam isso. não aceitam meu cabelo, nem minha cor. meus relacionamentos sempre foram bem afetados pela minha confusão interna. por como eu era tratada por minha família adotiva, eu achava que todo mundo seria igual. mas descobri que não, existem pessoas genuinamente boas neste mundo. e long season para mim é sobre isso, sobre aproveitar a vida. eu nunca tive uma vida legal, por isso sempre me refúgio em coming of ages para tentar me inspirar nessas histórias e quem sabe um dia eu não vivêncio a minha propia aventura. para mim, long season é um pequeno cataclismo. a definição de cataclismo: é um evento temático que corresponde a uma temporada, oferece recompensas e desafios únicos ao longo da sua duração, e ao terminar, deixa a região transformada. aaaaaa, sabe? um dos meus sonhos agora é quando mais velha, chamar alguma pessoa querida, sentar-me na praia, e ver a vida passar com esta música de fundo. ficarmos dançando lentamente... enfim, 2021 foi um ano muito desafiador e desagradável para mim, eu não tinha outra opção, tive que me assumir, logicamente iam achar estranho eu me tratando no feminino. isso gerou tanto escândalo que cheguei a ser internada num hospício, foi um dos meus piores traumas. saí destroçada, aconteceram coisas bem ruins comigo lá dentro. eu me tornei alguém apática, suicida, rancorosa, até de uma certa forma vingativa. eu estaria mentindo se falasse que não me tornei minha pior inimiga, eu me odeio. mas graças a poucas pessoas e coisas eu tento ser melhor. tento ver que mesmo doente, com sintomas muito pesados, talvez ainda tenho chance de viver, de ter minha oportunidade. de ter minha temporada. tudo que quero é melhorar e poder cuidar melhor de mim, dar continuidade aos meus projetos, dar seguimento as minhas pendências. e para encerrar queria dar um conselho, se você está lendo isso e está em um momento confuso na vida, ruim... não sabe para onde está indo, sinta-se abraçade. pois estou na mesma, estamos na mesma! eu queria muito que as coisas fossem mais fáceis pra todo mundo. enquanto escrevo ouço a trilha sonora de all about lily chou-chou. um filme melancólico mas lindo. do diretor que atuou num dos filmes favoritos da vida, ritual (2001), de hideaki anno. esse filme é bem especial pra mim. pois também sinto que minha vida é uma grande repetição, um grande ritual de tristeza e decepções. eu aprendi muitas das coisas que sei hoje através de dores, de términos. essa é a primeira vez que escrevo sobre uma música, acho que não me sai tão mal. chegamos ao final da temporada. as variações, o sons agudos nos lembram que a vida não é sempre boa, muitas das vezes é turbulenta, mas é bom ter mente que as coisas quase sempre melhoram. eu já morei em muitos lugares, talvez por isso sinto tanto essa sensação de despertencimento. tem um trecho de long season que eu amo:

watching the sunset in the rear view mirror, feeling kinda happy, feeling kinda lonely, Seems like I've been done in by my cold medicine
And like that, like that, I'm...
I'm driving, I'm driving
I'm driving, I'm driving
I'm driving, I'm driving
I'm driving, I'm driving

me lembra a trilogia before, de richard linklater, e acho que dá até pra fazer um paralelo entre todas essas obras. primeiro, são duas trilogias, segundo, as duas abordam o passar o tempo. terceiro as duas nos fazem apaixonar. existem coisas realmente lindas no mundo. aprendi isso com a arte. long season parece um sonho, tipo sandman. é algo completamente onírico e maravilhoso musicalmente falando.

crescer, fim.

Não consigo dominar Este estado de ansiedade A pressa de chegar P'ra nao chegar tarde Não sei do que é que eu fujo Será desta solidão Mas porque é que eu recuso Quem quer dar-me a mão Vou continuar a procurar A quem eu me quero dar Porque até aqui eu só Quero quem quem eu nunca vi Porque eu só quero quem Quem nao conheci Porque eu só quero quem Quem eu nunca vi Porque eu só quero quem Quem nao conheci Porque eu só quero quem Quem eu nunca vi Esta insatisfação Não consigo compreender Sempre esta sensação Que estou a perder Tenho pressa de sair Quero sentir ao chegar Vontade de partir P'ra outro lugar Vou continuar a procurar O meu mundo O meu lugar Porque até aqui eu só Estou bem aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu não vou Porque eu só estou bem Aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu não vou Porque eu só estou bem Aonde não estou Esta insatisfação Não consigo compreender Sempre esta sensação Que estou a perder Tenho pressa de sair Quero sentir ao chegar Vontade de partir P'ra outro lugar Vou continuar a procurar A minha forma O meu lugar Porque até aqui eu só Estou bem aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu nao vou Porque eu só estou bem Aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu não vou Porque eu só estou bem Aonde não estou Estou bem aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu nao vou Porque eu só estou bem Aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu não vou Porque eu só estou bem Aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu não vou Porque eu só estou bem Aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu não vou Porque eu só estou bem Aonde eu não estou Porque eu só quero ir Aonde eu não vou - antónio variações


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