• Lisa Yang

as coisas simples da vida (2000) ou yi yi: uma odisseia sobre recomeços na vida de uma família.

Atualizado: 11 de Dez de 2021



a one and a two...

um casamento. um coma.

é assim, já amadurecido, que edward yang posiciona e apresenta uma família e sua rotina e o que viria a ser sua despedida. poucas vezes vi alguém trabalhar tão bem quanto ele o "sub-plot", tramas secundárias ou até mesmo terciárias como é feito aqui. a partir de uma voz de fundo, um carro, um reflexo, um passaro, um som, uma/varias pessoa/pessoas aleatórias. sempre um pano de fundo, a algo.

em uma entrevista:

You had actually started thinking about the idea for “Yi Yi” some 15 years ago when a friend’s father went into a coma. But you had thought that you were too young to deal with that subject matter at that time. What has prepared you to finally tell this story?

Yang: This film is really about the spectrum of life from birth to death. At the time, 15 years ago, I knew I was too young to treat, especially the second half [of the film], properly. So I just let it sit and left it on the shelf.



nem todo filme precisa ter um grande enredo de vida ou morte, por mais que aquí, tenha, no entanto, yi yi ganha força quando fala do mundano, de cada componente da família jian em taipei, e um por um, aborda temores e aflições, das rápidas, até as mais profundas.

o drama aqui, lembra bastante desde diálogos, até enquadramentos o cinema de yasujirõ ozu. se vê, a influência tremenda nos olhares e nas composições. uma reverencia ao clássico, sem deixar de ser contemporâneo.

a abordagem dos conflitos diários é o que torna tudo tão cativante. como pequenas coisas podem mudar o destino de alguém. memórias que até então, estavam enterradas, porém por casualidade são revividas. e reencontros. é o desenrolar repleto de núcleos, que instiga a continuar assistindo.

se eu tivesse que definir esta obra com uma frase, seria expectativa vs realidade. acho que dá pra resumir bastante superficialmente por aí. como o bonito, pode enganar por aparência, como as pessoas são frágeis, e como repentinamente grandes decisões são tomadas por conta de adversidades, inesperadas. que nem sempre dão certo, essas decisões.

tem uma conversa que exemplifica muito o dilema que toca todos os outros:

- daddy, i can't see what you see, and you can't see what I see

how do I know what you are looking at?

- I haven't thought about that.

uma simples dúvida, que pode parecer paradoxal, mas que nunca antes tinha sido cogitada ou esperada, afinal, o que levaria alguém a? uma expectativa vs a realidade. o confronto direto ao inimaginável.

a cena que eu mais gosto e talvez a que mais possa sintetizar yi yi é da escola onde uma garota que já havia sido vista anteriormente sendo incomodada, entra numa sala escura e é dividida entre raios, é lindo e por si só, traz tudo a tona.

é interessante ver como edward yang trabalha também com o body language, onde tenta sempre ao máximo evitar close-ups, e por consequência prioriza tomadas mais abertas. é uma visão que entrega muito espaço, que pelo menos a mim, me causa uma sensação de conforto, no meio de tantos problemas. é contraditório, eu sei.

outra cena que fala muito sobre os temas que yi yi tem a falar é quando a-di,tenta suicídio, e a câmera levemente se distancia, nos lembrando que somos apenas espectadores da tragédia que nunca parece estar perto ou longe demais, embora saibamos que ela esta ali.

uma narrativa dividida entre personagens, cada um perfeitamente retratados, respectivamente, com total naturalidade.

no fim é isso, eu acho, uma despedida do mago do silêncio, de um dos que mais entendeu as relações humanas e a natureza da mesma. um dos cineastas que mais me faz sentir, verdadeiramente algo. muito carinho por ele.

- my uncle says... "we live three times as long since man invented movies"

- how can that be? - it means movies give us twice what we get from daily life.




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