• Victor Martins

A necessidade de se unir em Os Sete Samurais, por Victor Martins

Atualizado: 11 de Dez de 2021





Uma garoa constante começa a apagar a fogueira da vila que Os Sete Samurais de Akira Kurosawa então defendendo. Ouvimos gritos das pessoas ao redor, o choro de uma delas, vemos o afastamento de duas pessoas em específico. A guerra pune de diversas formas, inclusive com a solidão.

Esse silêncio é frequente no filme de Kurosawa e foi o que mais me chamou quando eu tinha meus 16 anos e assisti ao clássico pela primeira vez. Nunca pensei que escreveria sobre ele 11 anos depois e mesmo tendo revisto várias vezes ao longo desse tempo, as 3h30 de filme passam para mim como se fossem quinze minutos.

Não porque o espectador não sente a duração da obra, acredito que Kurosawa faz questão que o público sinta isso. A divisão das fases da guerra é nítida, os sons dessas fases também. O diretor japonês deseja que o espectador sinta o que aquela vila de lavradores sente, medo, desesperança ao ver a sua colheita roubada, o ódio que os leva a procurar os sete samurais liderados por Takashi Shimura.

Eles estão bravos e com razão. O trabalho de suas vidas é roubado, eles não podem cometer erros, são punidos por qualquer deslize mínimo. A direção de Kurosawa faz com que o público se identifique com isso. Em geral, somos punidos por coisas mínimas, não podemos cometer erros, a garoa constante que pode ser interpretada como a pressão que está nas costas de cada um de nós é algo sempre presente.

Assim, a duração é importante. Precisamos sentir o peso daquilo. O som nos lembra disso constantemente. As risadas geradas por Kurosawa na primeira parte do filme, a do recrutamento, vão nos fazer sentir saudade desse período mais simples na terceira parte e nos fará valorizar a segunda.

A metade do filme é importante e talvez subestimada. É nessa parte que o ódio dá uma sumida, onde a música tema, que faz o espectador sentir o peso através daquelas trombetas de guerra, menos aparece. Na segunda parte, o som não oprime, ele abriga. Vemos as pessoas fazendo aquilo que realmente importa, seja para a guerra futura ou para si mesmos como sociedade.

Finalmente eles se conhecem de fato. Aquela vila de lavradores é composta de gente distante de si, como se vivessem em uma cidade grande e apenas se unem pelo bem comum. É como se eles tivessem não apenas o medo da guerra, mas também o medo de se conhecerem por terem receio do que o apego pode fazer com eles, então Kurosawa prova algo clichê, eles não poderiam vencer aquela batalha caso não tivessem apego um pelo outro.




Talvez os samurais nem fossem necessários, talvez o som da guerra nem tivesse se tornado tão alto caso eles se tivessem se unido anteriormente. Infelizmente, isso é algo comum em nós como sociedade. Somos opressores, competimos uns com os outros de maneiras diretas e indiretas todos os dias, temos medo de nos envolver com o próximo pelo medo de sermos julgados.

Ninguém procura ser julgado pelo outro. Kikuchiyo (Toshiro Mifune), não se junta ao grupo inicialmente, pois tem medo das pessoas da vila e principalmente os samurais, o julgarem. Katsushiro (Isao Kimura), não se aproxima da mulher que gosta, moradora da vila, pois tem medo do que as pessoas ao seu redor, principalmente o pai dela, podem dizer.

Mas, como dito, a guerra fere de diversas formas, inclusive com esses medos de criar conexão. Se muitas vezes não fazemos algo por isso, a guerra, externa ou interna, faz as pessoas pensarem, “e daí? E se eu fizer isso? Dane-se, eu não tenho tempo a perder” e é isso que faz o filme andar, todos aqueles samurais recusam a proposta inicial, mas, ao pensarem de maneira mais desprendida sobre si mesmos, eles aceitam.

Ninguém tem tempo. Todos os dias criamos tempo para trabalhar, amar, viver de alguma maneira minimamente aprazível e eu acho que assim como os samurais de Kurosawa, nós devêssemos ser mais desprendidos. Kikuchiyo é a prova disso, o personagem de Mifune mostra como pode valer a pena arriscar e pensar mais no outro do que em si, mesmo que você precise e nunca deixe de pensar em si.

Como diz Takashi Shimura em dado momento, “Perdemos essa batalha” e na real, perdemos sim. A gente perde todo dia quando acorda, mas talvez valha a pena acordar mais desprendido de nós mesmos e pensando em fazer coisas que nunca faríamos, assim como Os Sete Samurais fizeram antes de aceitarem ir para guerra, antes de serem oprimidos pelo som e antes de entrarem de cabeça nas maravilhosas 3h30 desse grande clássico sobre medo e risco.


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